Amor na era do swipe: como apps mudaram o namoro no Brasil

Cerca de 23% dos brasileiros que possuem smartphone já tiveram um encontro presencial com alguém que conheceram por meio de um aplicativo de relacionamento — Foto: Tim Mossholder/Unsplash

Aos 23 anos, a empreendedora Erica Gonçalves Freire, atualmente com 33, baixou pela primeira vez um aplicativo de namoro no seu smartphone. Sua intenção era bem definida: achar um companheiro. Como não apreciava muito sair, enxergou na tecnologia uma chance de fazer novas amizades amorosas.

"Eu não gosto de festas, baladas ou locais com bebida alcoólica. Instalei o aplicativo por sugestão da minha irmã e vi ali uma forma de conhecer gente sem precisar sair de casa", relata Freire.

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Contudo, diferente do que imaginou inicialmente, a empreendedora não aprovou essa ferramenta e rapidamente removeu o app.

"Eu o usava por algumas semanas, depois desinstalava e ficava meses sem acessar. Mais tarde, instalava novamente. Cheguei a trocar ideias com alguns rapazes, mas os encontros presenciais foram raros", conta.

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Foi em 2021, cinco anos após seu primeiro contato com esse tipo de plataforma, que Freire resolveu arriscar mais uma vez e reinstalou o aplicativo no celular.

"Pensei: já que estou em busca de um relacionamento sério, talvez exista algum homem com a mesma intenção. Então decidi tentar de novo", afirma.

A insistência valeu a pena. Depois de dar "match" e conversar por algumas semanas com um rapaz, Freire marcou um encontro.

O homem, que residia em uma cidade localizada a 150 quilômetros de distância, foi até ela. No mesmo dia começaram a namorar e, três meses depois, já dividiam a mesma casa. No mesmo ano se casaram, e a união já dura cinco anos.

"Ele também é caseiro, não gosta de sair ou ir a baladas. Acho que só nos conheceríamos mesmo por meio de um aplicativo", diz a empreendedora.

Brasil está entre os maiores usuários de apps de relacionamento

Não existem dados exatos sobre quantos brasileiros estão cadastrados em aplicativos de relacionamento, e as empresas do setor evitam divulgar essas estatísticas, alegando sigilo.

No entanto, uma pesquisa da Mobile Time e Opinion Box realizada no ano passado indicou que aproximadamente 23% dos brasileiros com smartphone já tiveram um encontro com alguém conhecido através de aplicativos de relacionamento.

Tinder, Bumble e Happn estão entre os aplicativos de relacionamento mais populares no Brasil — Foto: Nik/Unsplash

Entre os jovens de 16 a 29 anos, esse índice sobe para 29%. Já na faixa de 30 a 49 anos, o percentual é menor, atingindo 25%, e entre aqueles com 50 anos ou mais, é de apenas 14%.

Entre os aplicativos de relacionamento mais conhecidos no país, que concentram a maior parte desses usuários, estão: Tinder, Bumble e Happn.

De acordo com a plataforma Happn, o Brasil lidera o ranking de usuários, com mais de 33 milhões de cadastrados, de um total global que ultrapassa 180 milhões de usuários.

"O Brasil é nosso maior público em todo o mundo. A aceitação da plataforma no mercado brasileiro continua excelente e em rápido crescimento: apenas nos últimos três anos, registramos um aumento de 10 milhões de usuários no país", comenta Karima Ben Abdelmalek, CEO e presidente do Happn.

Já o Bumble e o Tinder informaram que não compartilham dados sobre o número de usuários cadastrados, mas afirmaram que o Brasil é um de seus mercados mais estratégicos e ativos globalmente.

Transformações sociais

O interesse por aplicativos de relacionamento acompanha mudanças na sociedade. A rotina acelerada, longas jornadas de trabalho, alterações nos modelos familiares e a digitalização das relações criaram um cenário favorável ao crescimento dessas plataformas.

A lógica dos aplicativos é direta: perfis, fotos, descrições curtas e algoritmos que sugerem possíveis combinações. No entanto, os impactos sociais vão muito além da tecnologia.

Hoje, uma pessoa pode conversar simultaneamente com dezenas de estranhos, conhecer alguém de outro bairro, cidade, estado ou até país, e marcar um encontro sem que exista qualquer vínculo anterior entre eles.

Foi o que ocorreu com a empreendedora brasileira Raellyn Ritter Vilela, de 30 anos, que desde julho de 2025 mora na Ásia e há cerca de sete meses conheceu o namorado Oleksandr através de um aplicativo de relacionamento.

O rapaz é ucraniano e vive na Inglaterra. Sem o aplicativo, dificilmente os caminhos dos dois se cruzariam.

"Usei o aplicativo pela primeira vez em julho, quando me mudei do Brasil. Como estava viajando por países da Ásia, achei que seria uma forma de conhecer novas pessoas. Conheci muita gente legal e tive alguns encontros até que, em novembro, dei 'match' e marquei um encontro com o Oleksandr, que estava de passagem pela Tailândia", conta.

Apesar de ambos terem gostado do encontro, Vilela conta que tinha uma viagem marcada para uma ilha no país no dia seguinte e seguiu seu roteiro.

Os dois continuaram trocando mensagens e depois passaram a conversar por videochamada. Cinco meses após o primeiro "date", o casal marcou um novo encontro. Dessa vez, passaram doze dias de férias na Espanha.

"Começamos a namorar e, depois de alguns meses, fiquei 20 dias na casa dele na Inglaterra, onde pudemos nos conhecer melhor. Ele já tinha planos de se mudar para a Tailândia, estava em transição de carreira, e percebemos que havia uma possibilidade concreta de vivermos juntos. Em dezembro, vamos ao Brasil para conhecer minha família e, no ano que vem, vamos morar juntos", conta Vilela.

O outro lado da conexão

Mas o sucesso dos aplicativos não eliminou os desafios. Ao lado das histórias de amor como as de Freire e Vilela, surgiram relatos de cansaço, frustrações e até queda na autoestima.

Uma pesquisa da Forbes Health (2025) revela que 78% dos usuários já se sentiram emocionalmente exaustos com essas plataformas, indicando uma busca por relações mais autênticas e menos automatizadas.

Mulheres aparecem como as mais afetadas pelo esgotamento com aplicativos de relacionamento — Foto: Priscilla Du Preez/Unsplash

Entre os principais fatores desse cansaço, a dificuldade de estabelecer uma conexão real lidera (40%), seguida pela decepção com outras pessoas (35%) e pela rejeição (27%).

Também contribuem as conversas repetitivas com diferentes pessoas (24%), o hábito constante de deslizar perfis (22%) e o tempo gasto nos aplicativos (21%).

A pressão para manter uma imagem idealizada (20%) e o esforço de gerenciar múltiplos perfis (18%) também aparecem como causas relevantes.

As mulheres são as mais afetadas, com 80% delas relatando esgotamento, contra 74% dos homens.

"O problema não é apenas a superficialidade da escolha em si, mas também o que esse modelo faz com o comportamento depois. Quando você tem acesso ilimitado a novos perfis, qualquer deslize numa conversa vira motivo para desistir. Não há razão para investir quando a próxima opção está a um swipe de distância. Isso criou uma geração de pessoas que sabem iniciar contato muito bem e se comprometer muito mal. A entrada ficou fácil demais e a saída virou o padrão", explica Êdella Nicoletti, psicóloga e especialista em Terapia Comportamental Dialética (DBT).

Tinder — Foto: Good Faces Agency/Unsplash

Por ser um ambiente de escolhas rápidas, combinado à abundância de perfis e à incerteza sobre intenções, a experiência muitas vezes se transforma em um processo desgastante. A sensação de ser facilmente substituído também se torna comum.

Especialistas apontam que esse excesso de opções gera uma sensação paradoxal. Em vez de facilitar as escolhas, a abundância de perfis pode tornar as decisões mais difíceis e aumentar a insatisfação.

"Temos a questão do 'burnout afetivo', que está relacionado ao fato de as pessoas terem que lidar com situações que geram sofrimento constantemente, como ghosting, respostas de assédio, términos de relacionamentos, ter que atualizar o perfil no app continuamente, excesso de mensagens, entre outras. E também a questão da saciação, quando algo recompensador é oferecido tantas vezes que perde o efeito", acrescenta Vinícius Dornelles, psicólogo e especialista em Terapia Comportamental Dialética (DBT).

Há ainda a questão da autenticidade. Fotos antigas, informações imprecisas e perfis falsos continuam sendo preocupações frequentes para quem usa esse tipo de aplicativo. Além disso, existe a necessidade de tentar "agradar" o máximo de perfis possível para receber "match".

"Tem uma dimensão que pouca gente menciona: o que esses apps fizeram com a autoestima. Você coloca sua foto para ser julgada por desconhecidos em massa, espera validação na forma de match, e quando ela não vem, você internaliza aquilo como rejeição, mesmo que a pessoa do outro lado nem tenha visto seu perfil. É um modelo que estruturalmente produz insegurança", acrescenta Nicoletti.

O futuro do amor digital

À medida que os usuários começam a se cansar e reduzir o uso desses aplicativos, as empresas tentam responder criando novas ferramentas de conexão, como perfis mais detalhados e recursos voltados para relacionamentos de longo prazo.

Ao mesmo tempo, cresce entre alguns usuários o desejo de equilibrar experiências online e offline. Festas, eventos temáticos, grupos de interesse e atividades presenciais voltam a ganhar espaço como alternativas ou complementos às plataformas digitais.

Ainda assim, segundo os especialistas, dificilmente os aplicativos deixarão de ter um papel importante na vida afetiva dos brasileiros.

Assim como as gerações anteriores tinham suas histórias de amor iniciadas em bailes, praças ou corredores de escola, a geração atual coleciona relatos que começam com uma notificação na tela do celular.

"O que as pessoas parecem buscar, cada vez mais, é o que os próprios aplicativos prometeram: conexão genuína, autenticidade e a experiência de ser visto além de uma fotografia. Esses aspectos reforçam ainda mais a necessidade de uma educação na interação com as ferramentas digitais", acrescenta Dornelles.

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